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Apresentação
Situados nos domínios das ciências sociais e ciências humanas,
os estudos da comunicação e dos media constituem necessariamente
e cada vez mais um campo de investigação interdisciplinar. O
enorme impacto que os media tradicionais e os novos media
tecnológicos hoje têm nos indivíduos, nas sociedades e nas
culturas, de que a globalização e as novas formas de comunicação
interpessoal instantânea são exemplos, justifica que se
investiguem sistematicamente as relações entre media, cognição e
cultura. Neste contexto, os recentes avanços das ciências
cognitivas sobre a compreensão da cognição humana abrem novas
perspectivas e lançam estimulantes desafios às ciências da
comunicação, em geral, e aos estudos dos media, em particular.
Nas últimas décadas, as ciências cognitivas têm desenvolvido
modelos que nos permitem compreender aspectos essenciais da
cognição, da linguagem e da comunicação. Por exemplo, a partir
da psicologia cognitiva e da linguística cognitiva sabemos que
construímos as nossas categorias não em termos de condições
necessárias e suficientes, mas com base em protótipos. Daí
resultam estruturas radiais tipicamente polissémicas
fundamentadas na experiência humana. Sabemos das neurociências
que o cérebro não processa a informação visual de modo
descorporizado, mas mantém a topologia perceptiva das imagens e
reconstrói padrões de imagens. Estes esquemas de imagens
proporcionam coerência às categorias radiais e motivam
projecções metafóricas de domínios mais concretos em domínios
mais abstractos. Sabemos que podemos conceptualizar determinada
situação de modos alternativos e que o fazemos através de
operações conceptuais como a perspectiva, a atenção focal, a
proeminência, a abstracção ou a divisão assimétrica
Figura/Fundo, bem conhecida da psicologia gestaltista. Sabemos
que a comunicação não consiste apenas numa troca de informação
acerca do mundo, mas é um meio de cognitivamente coordenar as
diferentes perspectivas dos sujeitos de conceptualização
(locutor e interlocutor) e, assim, tomar em consideração,
regular, influenciar outras mentes. Mais recentemente, há
evidências de que a cognição humana não se reduz a operações
neurais meramente individuais, mas é igualmente determinada pela
interacção social e pela cultura, pelo que deve ser entendida
como cognição situada, sinérgica ou social.
O presente congresso pretende justamente promover o estudo
interdisciplinar das bases biológicas, cognitivas, emotivas e
sócio-culturais dos diversos media, tanto dos tradicionais como
dos novos, e do seu impacto nas culturas, nas sociedades e nos
indivíduos. Integra tanto a perspectiva da interpretação ou
análise crítica das representações e dos discursos dos media,
como as perspectivas da sua produção, percepção e avaliação. São
de especial interesse os seguintes tópicos focalizados nos
discursos e nas representações dos media: modelos cognitivos e
culturais de identidades sociais e culturais e em debates
sociais, políticos, económicos e científicos; modelos cognitivos
e culturais como ideologias; estruturas, sistemas cognitivos e
retórica em discursos unimodais e multimodais; protótipos e
estereótipos na categorização de diversos conceitos; metáfora
conceptual, tanto na sua manifestação verbal como na sua
manifestação não-verbal e multimodal; o potencial conceptual da
metáfora e da metonímia; espaços mentais e integração
conceptual; percepção gestaltista; percepção, compreensão,
estrutura e significação de imagens; padrões de interacção entre
imagem e texto verbal; a interpretação do texto multimodal;
esquemas de imagens pré-conceptuais e imagética mental;
atribuição de atenção; perspectiva e intersubjectividade;
métodos e técnicas de interpretação e produção dos discursos dos
media; a interacção entre aspectos corporizados e aspectos
sócio-culturais da cognição e da comunicação.
O congresso dirige-se a académicos e investigadores de
diferentes disciplinas, em particular ciências da comunicação,
linguística, semiótica, psicologia, sociologia, estudos
culturais, neurociências, mas todos interessados nos estudos dos
media. Académicos das ciências da comunicação ainda não
familiarizados com princípios e instrumentos analíticos da
linguística cognitiva, da semiótica cognitiva ou de outras
ciências cognitivas são convidados a conhecer mais acerca deles.
E este segundo grupo de académicos é convidado a estender e
aplicar as suas áreas de investigação à análise dos media. O
evento científico anunciado constituirá o primeiro congresso
internacional de ciências da comunicação promovido pelo recente
núcleo de ciências da comunicação do Centro de Estudos
Filosóficos e Humanísticos da Faculdade de Filosofia da
Universidade Católica Portuguesa.
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